Depoimentos


"Desde pequeno, já com 7 anos comecei a adotar animais de rua.

No começo, como com toda criança, adotava apenas de coração, pois morava em casa pequena e minha mãe não permitia que colocasse os animais dentro de casa. Naquela época, haviam 7 cães (entre machos e fêmeas) que me acompanhavam na rua. Minha preferida era a Bisteka, uma cadela bege com pelo duro feito arame, mas uma bondade só. Sempre que tinha cria ela sumia uns dias e quando podia sair e andar, vinha me buscar e levar até sua ninhada. Guardo até hoje com carinho seu olhar nestes momentos. Chegava na ninhada e seus olhos brilhavam de orgulho, como dizendo: "Não são lindos meus filhotes ? ".

Obviamente não conhecia nada sobre castração, posse responsável, superpopulação, etc. Passados todos estes anos, agora sempre que posso retiro um animal da rua, cuido, sano, vacino, vermifugo e castro encaminhando depois para adoção responsável.

E, como é normal, alguns vão ficando em casa mesmo e, normalmente, os de difícil adoção: velhos, cegos, deficientes, etc. Enganam-se aqueles que acham que estes animais só trazem trabalho.

Os animais adultos quando adotados, talvez por já terem o referencial da "vida dura" das ruas, uma vez que percebem que a estada no lar é definitiva, trazem uma série de benefícios para quem os adota.

Primeiro é mais fácil ter mais do que um. O segundo que for chegando e os subseqüentes, vão praticamente sozinhos se enquadrando nas regras da casa (e da matilha). Não se perde tempo ensinando onde é que se deve fazer as necessidades, por exemplo.

De igual maneira, as disputas por liderança são terrivelmente minimizadas pois você sempre será o lider da matilha (desde que saiba exercer o papel e esteja preparado para isto) e a convivência fica boa para todos: humanos e animais.

Ah! E tem a hora da brincadeira que é muito importante para todos. E nesta hora nem todos participam, pois os mais velhos (acima de 10 anos) nem sempre gostam destas brincadeiras e, como todo bom velhinho, fica à parte observando e, se incomodado, resmunga como aquele avô ranzinza que tem sua leitura de jornal interrompida por uma bolada! Mas a maior vantagem mesmo ao se adotar um animal adulto é o carinho e lealdade que se recebe. Independente da raça (aqui todos são vira-lata puros), tornam-se excelentes guardiães, pois quem é que quer voltar para as ruas tendo bons tratos, alimentação e amor? E aqui está a chave mais simples e fácil de educar e cuidar de animais: amor. Há de se sempre lembrar que não são nossa propriedade e sim somos seus guardiães. Cabe a nós manter sua saúde (física e emocional), sempre ter um canto seco, água todo o tempo e alimentação sadia nas horas e quantidades certas.

O melhor exemplo disto aqui em casa é o Branquinho. Foi encontrado abandonado batendo cabeça nas coisas, desorientado. Era cego e com mais de 14 anos. Na época antes de vir aqui para casa, foi deixado em um quartinho onde minha esposa trabalha e num final de semana teve uma tempestade enorme e ele sumiu. Depois de uma semana foi encontrado dentro de um bueiro semi-morto. Haviam larvas em todos os orifícios do corpo e quase veio a óbito. Na época os veterinários da USP disseram que não duraria mais do que um mês, dois no máximo. Já fazem quase 3 anos isto (completará em junho) e ele vai indo bem, cada dia mais fraco pela idade, mas está terminando seus dias com dignidade e carinho. Sua disposição para a vida, apesar de todos suas deficiências, é uma lição ensinada diariamente.

Outro caso é uma cadelinha que foi encontrada em uma estrada em Itú, com a pata dianteira pendurada. Fez a primeira amputação antes de vir para cá, mas como não se sabe quanto tempo ficou com a pata pendurada, apareceu uma osteomelite que demorou um pouco para curar. Nova amputação (junto com a castração) e hoje ela está ótima, saudável e tremendamente brincalhona. É tão ágil que sobe fácilmente em uma mesa de tosa, mesmo com uma pata a menos e tendo apenas 15 cm de altura.

Recentemente recolhemos um filhote que nasceu com uma pata subdesenvolvida (apenas um coto) e os dois brincam o dia inteiro. Ainda bem que tem uma pata a menos.  :-)))

Tem horas que os vemos brincando juntos e parecem que existem 10 patas ao invés de 6. Então, pense bem antes de comprar um animal. Existem tantos por aí abandonados e pedindo apenas uma chance de mostrar a você que está lendo agora o quanto ele poderá ser teu companheiro e amigo.

E, na verdade, é você quem sairá ganhando a maior parte do acordo, mesmo que não seja esta a sua intenção.

Para eles não há dia ruim, não há desapontamentos. Eles sabem perfeitamente reconhecer quando estamos em um dia difícil e respeitam nosso mau humor, ficando à distância. E, de igual maneira, saberão reconhecer quando você está "para baixo" e saberão fazer você esquecer o que te incomoda rapidamente.

Eles tem uma tática especial para isto. Chegam de mansinho, apoiam o focinho em nosso colo, ou empurram nossa mão com a ponta do focinho.

Qual tristeza resiste a isto?

Boa sorte com tua próxima adoção. Que tenha a mesmo sorte que temos tido até hoje."

Fowler T. Braga Filho - São Paulo
 


 

"Sempre, desde criança, gostei de animais. Vivia recolhendo gatos das ruas (e minhas irmãs os levavam embora...).

Hoje, moro sozinha - digo, como único humano da casa. Vivo cercada de bichos - os meus filhos. São muitos, mas aqui vou falar especificamente dos "especiais".

1) Bocelli é um akita branco, de cerca de 8 anos. Ele fora abandonado, estava sujo, magro e cheio de machucados. Ele sofre da síndrome dos akitas, que afeta a visão, a pele, as mucosas e provoca uma forte queda dos pêlos. Soube que ele havia sido encontrado e que seria levado para um abrigo. Meu coração ficou apertado - que chances teria um cão adulto, de porte grande e cego num abrigo? Decidi trazê-lo pra casa com a intenção de localizar os donos. Mas 24 horas depois de trazê-lo, eu já estava rezando para dono nenhum reclamá-lo, porque eu já estava irremediavelmente apaixonada por ele. Nestes pouco mais de três anos de convivência, por nenhum segundo me arrependi de ter seguido meu impulso. Cada vez mais aumenta minha certeza de que ele é o cão mais doce que existe. É meigo, paciente, calmo e boníssimo. Além de lindo, é claro...

2) A Mocinha entrou na minha vida pela Internet. Recebi uma mensagem, contando sobre uma cadelinha que havia sido encontrada muito mal, com uma pata traseira ferida e com bicheira. O casal que a encontrou levou-a a uma clínica veterinária, onde sua pata foi amputada. Procuravam alguém que a quisesse adotar ou que oferecesse lar temporário, pois logo ela teria que sair da clínica. Ofereci lar temporário, e lá vieram Cristina e Sérgio (hoje meus amigos) trazendo a puríssimo sangue vira-lata. A Mocinha é do tipo magrela (o que é muito prático, já que tem uma perninha a menos para sustentá-la), bege mesclado com preto, pêlo curto. Esperta como ela só e uma grande atriz. As caras de coitadinha que fazia para as visitas... Era de cortar o coração. Mas bastava a pessoa sair do seu campo de visão, para que ela aprontasse como qualquer outro cachorro jovem! Formava uma bela empresa de demolição em sociedade com meus gatos... O lar temporário virou definitivo!

3) Ah, essa Internet... Uma mensagem de uma conhecida, que é voluntária na UIPA (União Internacional de Proteção aos Animais), contava que lá havia um poodle ao qual faltava uma patinha...Bom, é claro que fui buscá-lo. O Toddy não tem uma das patas dianteiras (Toddy Maneta, perigoso mafioso), por isso seu andar é saltitante. Ele é mestiço de poodle, mas não consigo identificar qual a outra raça... Costumo dizer que o pai dele é o Alf, o E.Teimoso. Adotá-lo foi surpreendentemente agradável. Ele se comportou muito bem no carro, provavelmente não era nenhuma novidade. Quando chegamos em casa, ele parecia estar voltando de um passeio e não chegando a um lugar estranho. Quando viu os gatos, saiu correndo e latindo atrás deles, todo feliz. Ele é um cãozinho feliz. Curte tudo, adora passear, faz charme, gosta da caminha no meu quarto, perto de mim. É mais um amor dentro deste meu coração incorrigível.

Tenho outros filhos especiais: Kachorrin, um pequinês cego e velhinho que estava perdido na rua (apesar da idade, está ótimo, todo serelepe); Piléki, um vira-lata de pêlo avermelhado, porte médio, que também perdeu uma pata traseira e a cauda em um atropelamento, um cão carinhoso e agitado; Tigrão, um vira-lata de porte grande, amarelo, que foi quase morto por espancamento, acabou perdendo uma vista e ficando com a cabeça meio amassada. Apesar de tudo o que sofreu, é um amor de cachorro. Safira é minha gata cega, que precisou de uma cirurgia nas pálpebras para evitar que perdesse os globos oculares. Ela é uma doçura, tão meiga, tão delicada... Tive também a Luzia, que hoje já vive nos Jardins de São Francisco. A Lulu também era cega, era uma bela vira-lata preta, peluda, muito dócil.

Sem os bichos, minha vida perderia mais da metade da graça. O carinho que eles me dão vale muito mais do que qualquer esforço da minha parte."


Maria Inês Setz, São Paulo

 

"Homenagem de um Amigo"

Quando pedimos a Inês para escrever este depoimento acima, já sabíamos que sua saúde não era das melhores. No dia 13 de outubro de 2003 ela passou para o outro lado do arco-íris.

Temos a certeza absoluta de que muitos animais a esperavam. A boa vontade e bondade da Inês para com os peludos sempre foi ímpar. Eles até abusavam de sua boa vontade e a Inês acabou acolhendo muitos e muitos animais. Mas ela mesma nunca se incomodou com isto. Enquanto pôde nunca deixou faltar nada a estes. E quando não pôde, muita gente amiga a ajudou. Eram 52 felinos e 17 caninos. Todos castrados, vacinados e recebiam visita da veterinária freqüentemente.

Uma das pessoas que comentou sua passagem disse que a Inês quando chegou do outro lado perguntou:

"Então isto é que é o céu? Mas onde é o céu dos bichos? Quero ficar lá que deve ser mais divertido!"

Inês tinha uma infindável capacidade de amar. Peludos e humanos. Em uma das vezes em que fui visitá-la para levar alguma palavra de conforto, eu é que recebi. Fui pensando em levar um pouco de companheirismo e consolo, mas saí consolado. Fui levar uma gotinha de carinho e saí agasalhado de ternura. Pretendia levar um pouco de resignação e saí coberto de esperança.

Assim era a Inês.

"Tenho Bob Marley, meu SRD lindo de 8 anos que sempre viveu sozinho, senhor absoluto de todos os carinhos e da casa.

Quando adotei Janes Jopplin de 1 ano e meio na Associação Casa do Cão e Gato, fiquei com muito receio de não haver adaptação da parte dele. Levei Janes num sábado para casa e apresentei ela ao Bob; ele ficou louco, uivava, corria, queria de qualquer maneira ficar junto dela. Coloquei ela dentro de casa e ele na área coberta, pois iria ser castrado na segunda-feira. Assim foi feito. Ambos castrados, comecei um período de adaptação dos dois.

Na primeira semana, antes de sair para o trabalho deixava os dois juntos comigo vigiando. Na volta do trabalho fazia a mesma coisa. Aos poucos, os períodos juntos foram aumentando e era muito engraçado, pois Bob permitia tudo menos que Janes corresse no quintal ao seu lado, ele parava ela rosnando, ele tinha que ir na frente. Eu ficava com medo dele machucar ela, mas meu sobrinho falou que eu não me intrometesse pois eles iriam se adaptar tranquilamente; ele só estava mostrando quem era o líder.

Hoje, passados meses, os dois estão ótimos, brincam o tempo todo e trocam as tigelas da comida e da água. Ela escolhe a cama que vai dormir, ele dorme na que ela deixa para ele. Ela quer sempre o osso que ele está comendo, ele só olha. Mas na corrida no quintal é ele quem vai na frente. Os dois são amigos. Quando Bob fugiu e voltou machucado, ela lambia as feridas dele, uma gracinha. Quando eu levanto tenho que falar com os dois de uma vez, fica um em cada lado. Ele é grande e bruto, ela é pequenina e frágil, mas se dão maravilhosamente bem. Eu não me meto, deixo eles dormirem onde querem, comerem onde quiserem. O espaço é deles e a divisão também.

Adotar um cão adulto é uma experiência maravilhosa!"

Marilena Neves, Rio de Janeiro


 

"Quando o meu pai morreu a minha tristeza foi tão grande que nada conseguia fazer com que eu aceitasse a vida como momentos que vão para sempre embora.

Sendo assim, comecei a procurar significados expressivos para ela. Quando saí neste dia para ir ao banco em Botafogo, na movimentada rua Voluntários da Pátria, vi um monte de pessoas olhando para dentro de uma lixeira. Lá estava ela, a minha pequena Chanel, jogada, doente, talvez sem chance de viver. Ela devia ter uns 3 meses, estava com sarna, sem pêlo e muito fraca. Mal ficava de pé. Peguei a bichinha diante dos olhares curiosos e ao invés de ir ao banco, fui parar no veterinário, onde ela ficou em recuperação por 3 semanas.

O veterinário foi maravilhoso, nada me cobrou, e cuidou dela com muito amor. Em 3 semanas o pêlo começou a nascer e os olhinhos a brilharem. Então trouxe-a para a minha casa. Todos falavam que ela era filhote de CRUZ CREDO! Cuidei dela, coloquei-a na minha cama, no meu coração e toda a dor da tristeza de ter perdido um pai foi abrandada pela nova história de amor entre mim e ela.

Hoje ela tem um ano e três meses (aproximadamente) e é o meu anjo da guarda e minha melhor amiga. Ela está linda e em homenagem à estilista francesa Gabriele Coco Chanel, ela recebeu este nome e, assim como Gabriele, ela é chic e charmosa. Este é o começo de muitas histórias de amor, amor incondicional.

Viva você também essa linda experiência.

Roberta Ribeiro, Rio de Janeiro

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"Aos estudar as características e a índole dos animais, encontrei um resultado humilhante para mim."
 

Mark Twain


Associação Casa do Cão e Gato